Entre todas as ameaças fitossanitárias que o produtor de algodão enfrenta ao longo de uma safra, um inseto se destaca pela sua capacidade destrutiva e dificuldade de controle é o bicudo-do-algodoeiro (Anthonomus grandis).
Desde sua chegada ao Brasil, em 1983, em Campinas (SP), esse inseto se espalhou por todas as regiões produtoras do país, e se tornou de forma consolidada a principal praga da cultura do algodoeiro no país.
O foco preferencial de ataque do bicudo são os botões florais, que são estruturas reprodutivas essenciais para a formação das maçãs e por seguinte, da produção de pluma.
Entender o porquê essa praga se estabelece tão forte nessa fase do algodoeiro, os danos que provoca e como planejar um manejo eficiente, é fundamental para garantir uma lavoura de alta produtividade.
Além disso, um ponto que pouco se é levado em consideração, mas ainda sim de grande importância, é a qualidade e o vigor das sementes utilizadas na semeadura.
Uma planta que emerge com vigor, uniformidade e sanidade pode suportar a pressão da praga e responder de forma eficaz às medidas de controle.
Por que o botão floral é o alvo preferencial do bicudo?
O bicudo-do-algodoeiro é um inseto fitófago especializado, e tendo sua relação com o algodoeiro o resultado de uma coevolução de muitos anos.
O adulto, um besouro com 4 a 9 mm de comprimento, possui uma cabeça prolongada que forma um rostro característico, o ‘bico’ que dá nome ao inseto. É por meio desse bico que ele perfura as estruturas reprodutivas da planta para se alimentar e depositar ovos.
Os botões florais são as estruturas preferidas do bicudo tanto para alimentação quanto para oviposição.
Em geral, os botões localizados no terço médio da planta são os preferidos para se alimentarem, enquanto os do terço superior são os escolhidos para a postura dos ovos.
A fêmea deposita um único ovo por orifício e fecha a abertura com uma substância semelhante a cera, que protege o ovo contra inimigos naturais e evita a desidratação.
Essa proteção, junto ao fato de que o ovo, larva e pupa se desenvolvem completamente no interior do botão floral ou da maçã, torna o controle especialmente difícil. Isso se dá ao motivo de praticamente nenhuma fase de vida do inseto, exceto o adulto, fica exposta à ação de inseticidas.
Após a oviposição, o desenvolvimento é rápido, visto que os ovos eclodem em 2 a 4 dias, as larvas se alimentam por 4 a 12 dias dentro da estrutura floral, a fase de pupa dura de 2 a 6 dias, e o adulto emerge em seguida.
O ciclo completo, de ovo a adulto, leva em média de 14 a 22 dias nas condições climáticas do Brasil, o que significa que, em uma única safra, podem ocorrer de 5 a 7 gerações da praga.
Os danos: o que acontece com o botão floral atacado?
O ataque do bicudo ao botão resulta em consequências diretas e indiretas para a produção da cotonicultura. O dano que ocorre diretamente é a queda dos botões florais, que ocorre após o ataque.
Os botões amarelam, suas brácteas se abrem e eles caem de forma prematura. Flores atacadas apresentam o chamado ‘aspecto de balão’, com abertura anormal das pétalas. Maçãs infestadas demonstram perfurações na parte externa, e as fibras e sementes internas são destruídas diretamente pelas larvas.
O período de ataque crítico para a cultura do algodoeiro vai dos 40-90 dias após a semeadura.
Nesse meio tempo, a pressão do bicudo define em grande parte o potencial produtivo da lavoura, e qualquer falha no monitoramento ou no controle pode comprometer uma safra inteira. Sem o controle adequado, estima-se que a praga possa causar perdas de até 70% da produção, e em situações extremas de abandono de manejo, as perdas podem chegar a 100%.
Indiretamente, o ataque do bicudo facilita a entrada de fungos e bactérias nas estruturas perfuradas, acelerando a podridão das maçãs. A planta infestada, sem conseguir produzir maçãs saudáveis, aumenta a quantidade de nutrientes para favorecer o crescimento vegetativo, fazendo com que a planta fique enfolhada, bem apresentada e saudável, mas sem produtividade.
Do ponto de vista econômico, os impactos são expressivos. Segundo a EMBRAPA, levantamentos conduzidos nas regiões produtoras do Brasil indicam que o custo médio com o controle do bicudo representa cerca de 9% do custo total de produção por hectare, considerando apenas os gastos com inseticidas e aplicações. Em um estado como o Mato Grosso, maior produtor de algodão do Brasil, isso representa uma grande parte de perdas e custos de controle a cada safra.
O que torna o controle de bicudo difícil?
O bicudo possui um conjunto de características que tornam seu controle único e desafiador. Dentre os principais fatores, ressalta-se:
- Desenvolvimento interno: ovo, larva e pupa se desenvolvem protegidos dentro dos botões florais e maçãs, sem chance de sofrerem ação de inseticidas. Apenas o adulto fica exposto.
- Alta capacidade reprodutiva: uma fêmea pode depositar de 100 a 300 ovos ao longo de sua vida. Se apenas 20 bicudos por hectare estiverem presentes no início do ciclo, é possível chegar a dois milhões de descendentes ao final da safra sem controle adequado.
- Diapausa: o bicudo é capaz de entrar em estado de dormência reprodutiva e fisiológica, chamada diapausa, durante a entressafra. Assim, permanece protegido em áreas de vegetação nativa do Cerrado e da Caatinga por até 77 dias ou mais. Quando o algodão volta a florescer, os insetos sobreviventes retornam à lavoura.
- Ciclo biológico curto: com 5 a 7 gerações por safra, a grande pressão populacional cresce de forma expressiva ao longo do ciclo da cultura.
- A alta dispersão: mesmo que um produtor adote todas as medidas corretas, a negligência de um vizinho pode reinfectar toda uma região, prejudicando o trabalho de uma safra inteira.
Essas características fazem com que o manejo do bicudo seja tratado como um problema de todos os produtores, e não apenas como uma questão de cada propriedade.
Estratégias de manejo do bicudo-do-algodoeiro:
O manejo eficaz do bicudo exige que haja atitudes de manejo longo de três fases distintas: pré-safra, safra e pós-safra. Sendo nenhuma delas, de forma isolada, suficiente.
Pré-safra: visando monitoramento e redução da população inicial
O monitoramento com armadilhas do tipo Hardee, iscadas com feromônio grandlure, deve ser instalado pelo menos 60 dias antes do início da semeadura, nas bordaduras de cada talhão.
O número de bicudos capturados por armadilha por semana, chamado de bicudos por armadilha por semana (BAS), orienta o número de aplicações necessárias ao surgimento do primeiro botão floral (fase B1).
Zonas com captura acima de 2 BAS (zona vermelha) podem requer até três aplicações em sequência a cada cinco dias. Entre 1 e 2 BAS (zona amarela), duas aplicações. Até 1 BAS (zona azul), uma aplicação. Sem capturas (zona verde), não é necessário realizar aplicação.
O cumprimento rigoroso do vazio sanitário também é uma medida fundamental. Durante o vazio sanitário, a ausência de alimento e abrigo aumenta de forma significativa a mortalidade dos adultos que estão em diapausa.
Durante a safra: visando controle localizado e em área total
A partir da fase fenológica V3 até o surgimento da primeira maçã firme, aplicações de inseticidas nas bordaduras funcionam como uma barreira química, impedindo a entrada e o estabelecimento dos adultos que estão migrando dos refúgios.
O nível de controle para início de manejo em área total é de 5% das estruturas florais com presença de adultos ou sinais de ataque, sejam este de alimentação ou oviposição.
Após a fase B1, o monitoramento visual deve ser feito, de preferência, com amostragem de 200 a 300 botões por talhão, a cada cinco dias, tanto nas bordaduras quanto no interior do talhão.
A rotação dos grupos químicos de inseticidas entre as aplicações é fundamental para que não haja desenvolvimento de resistência aos defensivos agrícola.
Pós-safra: visando reduzir a ponte biológica para a próxima safra
A fase final da safra é comumente ignorada, contudo, ela é decisiva para o sucesso do controle nas safras seguintes. A inclusão de inseticida na aplicação do desfolhante elimina adultos enfraquecidos antes de irem para os refúgios. A destruição das soqueiras, em no máximo 15 dias após o início da colheita, elimina o substrato que seria a sustentação da reprodução do bicudo durante a entressafra.
Além disso, pode-se utilizar a técnica das soqueiras-isca, que se trata do manejo de pequenas linhas de plantas com vigor vegetativo após a colheita, que acabam sendo expostas a aplicações sistemáticas de inseticidas, eliminando os insetos que sobreviveram, antes que eles entrem em diapausa.
Também, há a possibilidade da instalação de dispositivos atrai-e-mata, chamado de Tubo Mata-Bicudo (TMB), nos perímetros da lavoura. Esse manejo complementa o controle, utilizando o feromônio grandlure junto ao inseticida, que fará com que capture e elimine os adultos em migração.

O papel das sementes no enfrentamento da pressão do bicudo
Tendo em vista o potencial destrutivo do bicudo, um aspecto muitas vezes esquecido, mas que merece grande destaque planejamento da safra é a qualidade das sementes utilizadas.
Uma lavoura que emerge de forma uniforme, com plantas vigorosas e bem estabelecidas, apresenta vantagens significativas no manejo do inseto. Um ciclo bem desenvolvido a partir de uma semente de qualidade, facilita tanto o monitoramento quanto a tomada de decisão de controle.
Contudo, em caso de uma emergência desuniforme, resultado de sementes de baixo vigor, aumenta o período em que a lavoura está mais suscetível ao bicudo, tendo plantas em diferentes estádios de desenvolvimento por maior tempo. Isso aumenta a dificuldade do manejo, a concentração das aplicações (aumentando a quantidade) e favorece a multiplicação da praga.
A SLC Sementes oferece um portfólio de cultivares de algodão desenvolvidas para diversas condições edafoclimáticas, para as principais regiões produtoras do Brasil, com foco em alto potencial produtivo, e características que favorecem o manejo integrado de pragas.
Cultivares com arquitetura de planta adequada, concentração do florescimento e excelente adaptação regional são fatores importantes para o produtor no durante o controle do bicudo-do-algodoeiro. Conte com as cultivares disponíveis no portfólio da SLC Sementes.
A importância do manejo cultural:
Além do controle químico e do monitoramento com armadilhas, diversas práticas culturais integram o manejo desta praga e reduzem a dependência de inseticidas:
- Concentração da época de semeadura: o plantio bem planejado na região reduz a oferta contínua de botões florais para a praga e dificulta sua reprodução entre talhões com diferentes estádios de desenvolvimento.
- Eliminação de plantas tigueras e soqueiras: a presença de plantas voluntárias de algodão em lavouras de milho, soja ou em beiras de estradas representa um grande depósito de alimento e que também pode ser utilizado para oviposição durante a entressafra. A eliminação dessas plantas é obrigação legal e uma prática agrícola indispensável.
- Catação de botões florais caídos: a retirada e destruição dos botões florais caídos prematuramente no solo, que possuem larvas e pupas em desenvolvimento, pode reduzir em até 50% a população da praga.
- Rotação de culturas: a rotação de algodão com culturas não hospedeiras do bicudo interrompe o ciclo da praga, e contribui para a sustentabilidade do sistema da propriedade.
- Colheita rápida: atrasos favorecem a manutenção e reprodução do inseto na lavoura. Uma colheita eficiente e rápida diminui o tempo de exposição das estruturas que podem ser afetadas.
O manejo biológico: alternativa sustentável
O controle biológico do bicudo é dificultado pelo fato de que as larvas e as pupas ficam escondidas no interior das estruturas florais, sendo inatingíveis à maioria das formas de controle. Mesmo assim, fungos entomopatogênicos como Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae são altamente controladores do inseto adulto.
Embora o controle biológico não substitua o manejo integrado, seu uso de forma complementar, principalmente em fases mais específicas do ciclo da cultura, representa uma alternativa que pode auxiliar na redução da pressão do inseto sobre a cultura, no uso de inseticidas químicos e na sustentabilidade da lavoura.
Planejamento, tecnologia e sementes de qualidade
O bicudo-do-algodoeiro é, e provavelmente continuará sendo por muitos anos, a principal praga do algodão no Brasil. Sua fisiologia complexa, sua capacidade adaptativa e seu grande impacto econômico, fazem com que nenhum produtor subestime esta praga.
O caminho para conviver com essa praga, visando de forma economicamente viável, é através da adoção de um planejamento de manejo integrado e que seja regional, incluindo um monitoramento constante, vazio sanitário rigoroso, controle químico com rotação de grupos de ação, manejo cultural e manejo biológico, colocando sempre em ação, boas práticas agrícolas.
Tudo isso começa muito antes: na escolha de cultivares adequados e no uso de sementes com alto vigor e de qualidade comprovada. Para isso, conte com a SLC Sementes para potencializar a sua próxima safra!
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