A colheita do algodão é uma das etapas mais decisivas para o sucesso da safra. Depois de meses de investimento em genética, manejo, fertilidade e proteção da lavoura, uma operação mal executada pode comprometer a qualidade da fibra e reduzir a rentabilidade do produtor.
Isso acontece porque o algodão é comercializado com base em parâmetros de qualidade, como comprimento, resistência, uniformidade e índice de impurezas da fibra. E muitos desses atributos podem ser preservados, ou prejudicados, durante a colheita.
Por isso, o planejamento e a execução adequados dessa operação são fundamentais para minimizar perdas, preservar o potencial produtivo e garantir maior valorização da produção no mercado.
Neste artigo, você entenderá por que a colheita é considerada um dos momentos mais críticos da cotonicultura e quais cuidados são essenciais para alcançar os melhores resultados.
A importância de uma colheita bem manejada:
O algodoeiro tem crescimento indeterminado e capulhos distribuídos em diferentes alturas da planta, o que já torna a colheita mais complexa do que em culturas como a soja ou o milho. Quando a operação é realizada de forma inadequada, as consequências aparecem de duas formas: como perdas quantitativas e perdas qualitativas.
A literatura aponta que a perda máxima aceitável na colheita mecanizada do algodão é de 10%, com faixa ideal entre 6 e 8%. Em um cálculo simples: numa lavoura com produtividade de 300@ por hectare, cada ponto percentual de perda representa 3@ a menos na nota. Multiplicado pela área, o impacto no resultado da safra é impactante.
Perdas acima de 10% são um grande sinal de alerta. Quando isso acontece, geralmente a causa está na má regulagem da colhedora, velocidade de colheita errada ou a lavoura ainda não está preparada para colheita.
Colheita manual e colheita mecânica:
No Brasil, praticamente toda a área de algodão é colhida mecanicamente. A colheita manual, embora diminua o risco de diminuir a qualidade da fibra, é inviável economicamente em grandes áreas.
Isso ocorre, pois um apanhador colhe em média de três a seis arrobas por dia, enquanto uma colhedora pode trabalhar 2.000 a 3.000 arrobas por dia em condições ideais. A escolha pela mecanização é necessária, mas exige atenção redobrada com regulagem e operação.
Em termos de qualidade, a colheita manual resulta em fibras mais limpas, com menor contaminação por impurezas, melhor reflectância e menor amarelecimento. Estudos comparam diretamente os três sistemas disponíveis, e a ordem de qualidade da fibra, do melhor para o pior, tende a ser: manual, picker e stripper. Isso não quer dizer que o resultado do sistema picker ou do stripper seja ruim, mas sim que o manejo e as regulagens precisam ser extremamente bem feitos para minimizar diferenças.
Picker ou stripper: qual usar?
Os dois principais sistemas de colheita mecanizada do algodão têm funcionamentos bem distintos, e a escolha entre eles depende das características da lavoura e da região.
O sistema picker funciona por meio de fusos rotativos que puxam seletivamente a fibra dos capulhos abertos, deixando as cascas na planta. Por ser seletivo, colhe apenas o algodão em caroço, com menor contaminação vegetal. É o sistema dominante nas lavouras do Cerrado brasileiro.
O sistema stripper, por sua vez, passa pentes ou rolos sobre as plantas e remove os capulhos inteiros, junto com brácteas, folhas e fragmentos lenhosos. Gera mais impurezas na fibra, mas é menos complexo e de menor custo operacional. É utilizado principalmente em lavouras com plantas de porte baixo e capulhos fechados.
Para o cerrado brasileiro, o picker ainda é o sistema mais adotado pelas grandes algodoeiras, especialmente em lavouras com altas produtividades e porte de planta mais alto.
Preparação pré-colheita: porque não pular essa etapa
Colher uma lavoura mal preparada é o caminho mais rápido para perdas elevadas. A preparação pré-colheita envolve principalmente a aplicação de reguladores de crescimento, desfolhantes e dessecantes.
Desfolhantes: causam a abscisão das folhas, limpando a planta e facilitando o trabalho da colhedora. Em geral, são aplicados quando 50 a 60% dos capulhos estão abertos e os demais já atingiram maturidade suficiente. Temperaturas mais quentes favorecem a eficiência dos desfolhantes.
Dessecantes: secam rapidamente as folhas e a planta. São mais utilizados em lavouras com capulhos fechados e característico uso com o sistema stripper. A referência é aplicar quando cerca de 80% dos capulhos produtivos estão abertos.
Reguladores de crescimento: aceleram a abertura dos capulhos e a abscisão foliar. Devem ser aplicados apenas quando os capulhos estão maduros. Aplicar cedo demais resulta em redução de produtividade e de micronaire.
Dicas práticas:
- Aplicar produtos de manejo pré-colheita em dias quentes, ensolarados e sem vento;
- Condições de frio e umidade reduzem a eficiência dos produtos e podem requerer uma reaplicação;
- Verifique o terreno antes de entrar com a colhedora: a declividade do solo não deve ultrapassar 8%, e qualquer obstáculo como tocos, pedras e valetas precisa ser removido ou sinalizado para evitar danos à máquina e riscos para o operador.
Velocidade de colheita: as vezes menos é mais
A velocidade da colhedora tem impacto direto nas perdas. Estudos conduzidos no Mato Grosso com colhedoras em sistema picker, avaliaram velocidades de 4,1 e 4,9 km/h. Como resultado, percebeu-se que o aumento de velocidade elevou as perdas tanto no solo quanto na planta, em todas as safras avaliadas.
Na prática, o aumento de cerca de 20% na velocidade (de 4,1 para 4,9 km/h) gerou acréscimos de até 28% nas perdas no solo e de até 21% nas perdas na planta. Isso quer dizer que a pressa na colheita pode custar caro no balanço final.
As perdas observadas foram classificadas em dois grupos:
- Perdas no solo: algodão que cai durante a passagem da colhedora e não é recolhido;
- Perdas na planta: capulhos que ficam presos na planta após a passagem dos fusos ou pentes.
A velocidade ideal para colheita picker fica em torno de 4,0 a 5,0 km/h, ajustada conforme produtividade, condições da lavoura e porte das plantas. Não existe um número fixo: o operador precisa monitorar as perdas em campo e ajustar a marcha.
Regulagem da colhedora: detalhe que faz diferença
Uma colhedora bem calibrada é capaz de trabalhar dentro da faixa aceitável de perdas mesmo em condições desfavorável. Dessa forma, há alguns fatores que merecem atenção antes e durante a operação:
- Umidade do produto: o teor de umidade do algodão em caroço na colheita deve ser de aproximadamente 12%. Em dias muito úmidos, a colheita deve ser feita nas horas mais quentes, quando a umidade naturalmente cai. Colher com teor de umidade elevado compromete a qualidade da fibra no beneficiamento;
- Altura da plataforma: a altura do primeiro capulho em relação ao solo determina a regulagem da plataforma da colhedora, que possui altura fixa. Quanto maior a variação entre a altura do capulho mais baixo e o mais alto na planta, maiores serão as perdas na planta;
- Espaçamento dos rolos (stripper): no sistema stripper, o espaçamento entre os rolos de extração deve ser ajustado conforme o diâmetro médio das hastes. Espaçamento muito fechado aumenta a contaminação por material vegetal, já o muito aberto aumenta as perdas no campo;
- Velocidade dos fusos e limpeza: fusos sujos ou desgastados reduzem a eficiência de extração. A limpeza diária é obrigatória;
- Sistema de limpeza: colhedoras equipadas com limpadores de campo (field cleaners) conseguem remover entre 50 e 60% das impurezas ainda na máquina.
Antes de entrar no campo, faça um checklist diário. Uma parada não programada por falha mecânica na colheita pode custar muito mais do que poucos minutos de manutenção preventiva.
Qualidade da fibra: o que a colheita afeta?
A qualidade intrínseca da fibra tem base genética, mas o processo de colheita impacta diretamente nos parâmetros que afetam o valor comercial:
- Grau de impureza: o sistema stripper resulta nos maiores índices de impurezas, seguido do picker e da colheita manual. Impurezas elevadas reduzem o grau de classificação e o preço pago ao produtor;
- Reflectância: a colheita mecanizada reduz a reflectância da fibra em comparação com a colheita manual. Quanto maior a reflectância, mais branca e limpa visualmente a fibra;
- Amarelecimento: relacionado ao grau de cor, também é afetado pelo sistema de colheita e pelas condições de campo;
- Micronaire: indicativo da relação finura e maturidade da fibra. Aplicação prematura de reguladores de crescimento ou colheita de capulhos imaturos reduz o micronaire e prejudica a classificação do lote;
- Rendimento de fibra: o sistema stripper tende a reduzir consideravelmente o rendimento de pluma em comparação ao sistema picker e colheita manual.
Colheitas bem conduzidas, com lavoura preparada e máquina regulada, entregam fibras com qualidade superior, que resultam em maior valor de produto.
Pós-colheita: a destruição da soqueira não é opcional
Após a colheita, é de extrema importância que a destruição dos restos culturais do algodoeiro seja realizada. No Brasil, essa prática é obrigatória por lei federal e regulamentada por portarias estaduais.
Isso acontece pois os restos de cultura servem como abrigo e fonte de alimentação para pragas e doenças durante o período de entressafra. O bicudo-do-algodoeiro, uma das pragas mais prejudiciais da cotonicultura brasileira, passa parte do seu ciclo dentro de capulhos e maçãs que ficam na soqueira. Destruir a soqueira faz com que elimine esses focos e reduz a pressão de pragas na safra seguinte.
Respeite os prazos regulamentares de destruição da soqueira definidos pela sua região. Além de ser obrigação legal, é um dos investimentos de menor custo que você produtor pode realizar visando a safra seguinte.
Colheita bem feita começa antes de a máquina entrar no talhão:
Cada detalhe conta: a cultivar escolhida, a altura das plantas, o preparo da lavoura, a regulagem da colhedora e a velocidade de operação. Quando tudo está alinhado, as perdas se minimizam, a qualidade da fibra é preservada e o produtor chega ao beneficiamento com um produto de alta classificação.
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